15.5.10

As palavras contigo são armas e são flores. Estão cheias, a transbordar, como baldes de água. Como nuvens que eu não consigo agarrar. As palavras contigo são dois polícias à minha espera preparados para me agarrar as pernas. Tenho fobia das palavras. Contigo elas têm um cheiro de desconfiança e de perfeição. Podem ser tudo o que tu quiseres. As minhas são vagas. Não vão a lado nenhum. Às vezes saio de casa a correr e só me apetece gritar. As palavras ficam em casa e eu sei que posso ir calado pela noite. Quando nos reencontramos é tudo mais doce e as palavras estão lá para tornar tudo mais doce, como um cubo de açúcar. Mais que isto só o meu cansaço pode falar por mim.

17.4.10

crying light

Eu regressei a casa nervoso. De te encontrar em posições para apagar da memória. De te encontrar estendido com um cigarro por fumar. De te encontrar na cama a ler um livro. Eu fiz o tempo estender-se e estender-se até abrir a porta. E foi assim que vi os sapatos as calças o isqueiro os óculos a camisa até à massa do teu corpo meio enrolado meio estendido. E os teus olhos a dizerem-me hipóteses matemáticas.

10.4.10

primitive

O teu ecrã sujou-me as calças e o peito. E um cheiro difícil de esquecer. A tua imagem. Colado ao ecrã. Eu durmo. Enquanto o libertas não sei o quê. A bandeira do teu país, as canções nacionalistas, as notícias. O teu país suja-me as calças e o peito. Prazer e morte. Pouco prazer. Demasiado rápida a morte do teu admómen e da tua mão direita. Eu não estou lá. Na morte do teu pénis. Só sinto o cheiro da tua nação nas minhas calças de ganga e no meio peito liso.

17.2.10

infinity

Pousei o relógio na mesa. O cinto, as calças, as botas no chão. Agarrei na tua cabeça até sentires a densidade da madeira da cama e o teu sangue provar o nosso amor. Poucos instantes depois, tombado o candeeiro pouco sofisticado e esquecidas as boas maneiras, prometi que não te magoaria nunca. Fiz-te rezar comigo. Cuidei da tua testa. O quarto pareceu cada vez mais pequeno, o que acelerou o meu ataque de pânico.
Quando me virei para ti, refeito do medo, já estavas na internet a pedir ajuda. Que eu quase te matei, que estás sozinho, que mal me conheces. E nesse instante lembrei-me do teu perfil, da fotografia do teu rabo, das palavras que trocámos, da minha morada e do número de telefone. Tudo verdade. Não te consegui mentir.

2.2.10

speechless

Não queres falar mais. Queres guardar a voz dentro de ti, como o coração. E escrever, eventualmente. Assumes que desistes. Só desistes de usar as palavras com a garganta e ar e tempo. Não tens uma língua para falar. Não tens pátria. Não tens espaço nem palco. Falta-te o texto para dizer. Como te falta uma viagem de metro. Por isso vais calar-te. Uma decisão pouca sensata. Talvez possas cantar e cantar tudo o que puderes cantar. Nada mais. Ninguém te exige mais. Não queres falar mais nem dançar mais. Só pensar e talvez nem isso e talvez nem isso. Queres evitar o vómito. De tantas palavras que tens ouvido e tentado procurar para conseguires sobreviver.

26.1.10

Quando

O rapaz precisa de uma confirmação. Pode ser uma palavra. Pode ser uma pausa. Nada para além do fim da rua. O rapaz precisa de ser filho único. O rapaz precisa de esquecer a internet. E com ela o mundo. O rapaz precisa de falar com sotaque brasileiro e outras línguas eventualmente. O rapaz precisa de abraçar o rapaz precisa de abraçar o rapaz. Para disparar com mais calma. E mão ferida dentro do bolso.